Peregrinações - Samantha de Sousa

capa samantha - Kopie

Peregrinações - poemas e prosa poética
Samantha de Sousa
72 páginas
à venda em: http://www.literabooks.com.br/peregrinacoes



Prefácio - O verso urgente

“Falta-me espaço dentro do corpo, então eu me derramo em palavras inauditas”. Assim é o livro Peregrinações, de Samantha de Sousa, propriamente um extravasar-se, um desprender-se da ditadura do silêncio para ganhar liberdade na amplidão que, afinal, “deve ter cheiro de plenitude e soa como uma música de Glass e é feito de cristais e pólen de flores astrais”.
Tripartite, a poesia de Samantha se nos abre como um portal e, uma vez que ingressamos, nunca sairemos incólumes. Viajaremos pela sua escrita caleidoscópica, onde cada página apresenta um novo ocaso e um novo começo. Percebemos, assim, a contínua mudança de ambientes e estados da alma. A passagem do tempo entre suas páginas é evidente. Tempo justo para a maturação de sua poética. Isto porque Peregrinações não é um livro, mas vários livros. A própria autora se transforma nesses lapsos de tempo: “as palavras me envelhecem”, nos revela sobre a relação entre sua poesia e o tempo que têm lugar na sua própria existência. Mas este tempo, que a autora sentencia em uma de suas mais belas metáforas – A medida da vida: sempre as páginas do relógio –, é o tempo subjetivo, tempo-memória, e a memória é fogo-fátuo na sua poesia, como sintetiza o texto Pescar Lembranças.
Mas, sobretudo, a autora se deixa lambuzar na sua viva poética, o que é louvável a quem se caminha pelas vias desta arte. Sua poesia está toda impregnada de si e vice-versa. Expressa-se na metáfora do espelho.

“Sou um corpo sem pele
Que arde sem chama
- e isso não aparece no espelho”.

Dona de um Verso urgente, a poetisa aspira tocar o vazio. Desenha no vazio com a ponta do dedo um anel e o calça. Assimila o sentido do não-ser e quer nos dizer desta experiência. Mas, não havendo recursos para traduzi-lo, ela busca sentido no sentido.
“Deus sentiu e criou. Ela sentiu e fez-se. E quanto mais sentia mais nascia para si própria, mais era mundo, mais era conceito de tudo e de nada. Sentia em sua pele, em cada poro, arrepios de existência.”
O não-ser, em Peregrinações, não se apresenta como ocaso da vida. E sim, como o não estar contido neste corpo “que pesa e que, por isso, existe”. A poesia quer transcender os sentidos e expressar a verdade da alma.
“Deito-me na rede e posso sentir o meu próprio peso. Não o peso da minha matéria, que é pouca. É meu peso de verdade, ele se espalha sobre mim e fica aqui, latejando.”
A poesia de Samantha é como a lótus que brota do lodo dos temas apresentados e se abre na exuberância do seu estilo arrebatador.
Aprecie ao som de som de Philip Glass e um bom vinho.

“Brindemos...
E que os nossos corações nunca se calem.”

Jorginho Quadros - poeta, contador de histórias, autor de Conspiração do Verbo

 

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Autorretrato aos 25 anos

 

Carrego eternidades dentro de mim.
Milhões de astros circulam em meu sangue.
Os tempos se confundem
O agora se torna ontem cada vez que fecho os olhos.

Falta-me espaço dentro do corpo,
Então eu me derramo em palavras inauditas.
Alguém as lê?
Fui toda silêncio, um silêncio estrondoso...
Até que explodi:
Tornei-me estilhaços espalhados em cadernos velhos
E em letras de garranchos.

Quantas vezes eu morri?
Quantas vezes transmutei?
Quantas vezes tive que ir embora de mim mesma?
Quantas vezes amei?
Quando me tornei?
Eu sou a cada instante.
Eu sou cada instante.
E rumo ao não-tempo
Eu sigo a escavar-me.

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A medida da vida: sempre as páginas do relógio

A medida da vida: sempre as páginas do relógio. A cada palavra concebida, meu passado se desgasta em um futuro imediato e inevitável. Eu vou acrescentando dias a minha permanência em cada página que eu escrevo, eu sei que isso só me torna efêmera em corpo, as palavras me envelhecem. Vou morrendo em cada linha. Vou pingando letra por letra, como uma chuva que vem de mansinho. Tão logo as rugas hão de aparecer e meus cabelos ganharão o tom das nuvens de inverno, meus olhos vão ficar cansados e enxergarei tudo como numa constante pintura impressionista, mas eu não tenho medo do tempo que me há de consumir. Quero sentir cada toque do tempo, quero ver cada movimento do meu devir. Eu me eternizo em minhas linhas, mesmo em silêncio, mesmo que as páginas do que um dia foi meu além-corpo sejam esquecidas. Não tenho medo de que me esqueçam, às vezes até gosto de não ser notada, de não ser percebida pelo olhar alheio. O meu verdadeiro medo é de esquecer a mim mesma, de não poder ouvir a voz que há por dentro. Minha vida se mede pelos barulhos, sabores, cores, cheiros e tremores que me fazem sentir em corpo vivo e vivente, que mais do que carne, é um corpo escrito em uma caligrafia quase indecifrável, mas que é tão minha que é como se fosse o que há por dentro e que se diz ser o que sou.

***

As páginas são como estradas, pousadas, as palavras que nelas escrevo são meus rastros. Algumas vezes essas páginas se tornam endereços estranhos, momentos onde um eu-presente não gostaria de ter estado. Memórias-estradas-latejantes. Eu fecho os cadernos e guardo as chaves comigo porque às vezes é preciso abrir as portas antigas e, às vezes, elas emperram e só se abrem com o meu grito sem voz. Outras vezes essas mesmas e outras portas se abrem sozinhas como se o vento folheasse meus cadernos. E eu penetro estas estradas, elas vão se alargando a cada passo até se tornarem desertos de inomináveis areias.

***

A medida da vida: sempre as páginas do relógio. Os ponteiros se esquecem do tempo.

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fotografia de samantha

Samantha de Sousa nasceu em Caxias-MA, mas viveu por 20 anos em Paragominas-PA e atualmente pode ser encontrada na cidade de Igarapé-açu, onde leciona no Instituto IEPA. Formou-se em Letras em 2011, é pós graduada em Psicopedagogia e está concluindo o mestrado em Estudos Literários. Começou a escrever como uma forma de autoanálise, autoafirmação e autodestruição, hoje a literatura faz parte de sua vida em todos os segmentos. Já publicou em algumas coletâneas, inclusive pela Editora LiteraCidade, entretanto, Peregrinações é seu primeiro voo solo. A autora também pode ser encontrada nos blogs umcafeparaminhagastrite.blogspot.com e the-darkdreams.blogspot.com.

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